Amor Futebol Clube

domingo, 24 de outubro de 2010

F.G.M., K. e a garrafa.

Instruções para cena:

F.G.M e K. estão sentados no boteco. F.G.M. está bêbado no sentido de “bêbado como um gambá” ou no sentido de “ele pode vomitar”. Ele já chamou Yoko para vir cuidar dele. Yoko virá a qualquer instante. K. está “sóbrio”. Mas é preciso ressaltar que as aspas não são um detalhe: “sóbrio” dentro de um âmbito extremamente restrito acerca do que seria a sobriedade. A garrafa está na mesa e ninguém sabe as intenções da garrafa. A garrafa pode atacar F.G.M. a qualquer momento. A garrafa pode atacar K. a qualquer momento. Na verdade: tem várias garrafas na mesa e ninguém sabe as intenções das garrafas; elas podem formar um exército de garrafas e atacarem a qualquer momento. F.G.M. está tendo um daqueles momentos de otimismo; ele sente que tudo vai dar certo para ele (no sentido de Bob Marley cantando “everything is gona be alright”) e para o mundo. Ele diz: “eu estou sentindo que essa garrafa (ele se refere e aponta para a última garrafa que ele está terminando de beber sozinho, porque K. não está bebendo) não vai nos atacar, eu também acho que essas outras garrafas na mesa não vão nos atacar; e mesmo se elas nos atacassem, não vai ser uma garrafa que vai quebrar as nossas caras; na verdade, as nossas caras é que vão quebrar essas garrafas, porque nós temos caras de ferro. Ele ri de modo melodramático: ele sente que a sua fala não foi poeticamente viável, ou, em outras palavras, ela foi meio piegas. K. olha com olhos abobalhados e incrédulos. Ele pensa: a garrafa vai nos atacar, as garrafas vão nos atacar. Garrafa, no caso, é metáfora para a contingência, o acaso e para a verdade. Com a letra K.. a cena pode também estar se referindo à Franz Kafka. F.G.M. é F.G.M.. Começa a tocar Eye of the Tiger e a cena termina de modo enigmático. Parte considerável da platéia pergunta: “mas hein?”.



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